EXERCÍCIO

Conclusão feliz

Cr/f/cor com humor os costumes da época foi também uma importante característica do Romantismo, como podemos observar

no romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida (1831-1861), do qual transcrevemos o último capítulo.

A comadre passou com a viúva e sua tia quase todo o tempo do nojo, e acompanhou-as à missa do sétimo dia. O Leo­nardo compareceu também nessa ocasião, e levou a família à casa depois de acabado o sacrifício.

Aquele aperto de mão que no dia do enterro de seu ma­rido Luisinha dera ao Leonardo não caíra no chão a D. Maria, assim como também lhe não escaparam muitos outros fatos con­secutivos a esse.

O caso é que não lhe parecia extravagante certa idéia que lhe andava na mente.

Muitas vezes, ao cair de Ave-Maria, quando a boa da velha se sentava a rezar na sua banquinha em um canto da sala, entre um Padre-Nosso e uma Ave-Maria do seu bendito rosário vinha-lhe à idéia casar de novo a fresca viuvinha, que corria o risco de ficar de um momento para outro desamparada num mundo em que maridos como José Manoel não são difíceis de aparecer, especialmente a uma viuvinha apatacada.

Ao mesmo tempo que lhe vinha esta idéia lembrava-se do Leonardo, que amara a sua sobrinha no tempo da criançada, e que era, apesar de extravagante, um bom moço, não de todo desarranjado, graças à benevolência do padrinho barbeiro.

Verdade é que se não sabiam bem as contas que seu pai havia feito a esse respeito; mas como era coisa que constava de verba testamentária, D. Maria nada via de mais fácil do que pro­por uma demanda, cujo resultado não seria duvidoso.

Havia porém no meio de tudo uma circunstância que lhe desconcertava os planos. O Leonardo era soldado. Ora, sol­dado, naquele tempo, era coisa de meter medo.

Quando D. Maria chegava a este ponto de suas medita­ções, abandonava-as, e continuava o seu rosário.

A comadre fazia quase exatamente os mesmos cálculos por sua parte, e também só esta única dificuldade se antolhava à realização de seus planos.

Enquanto estas duas pensavam, os outros dois obravam.

Luisinha e Leonardo haviam reatado o antigo namoro; e quem quiser ver coisa de andar depressa é ver namoro de viúva.

Na primeira ocasião Leonardo quis recorrer a uma nova declaração; Luisinha porém fez o processo sumário, aceitando a declaração de há tantos anos.

–   Ah! disse a comadre em tom malicioso, apenas apare­
ceu a Maria-Regalada, pelo que vejo isto por aqui vai bem…

–   Não se lembra, respondeu Maria-Regalada, daquele se­
gredo com que obtive o perdão do moço? Pois era isso!…

A Maria-Regalada tinha por muito tempo resistido aos desejos ardentes que nutria o major de que ela viesse definitiva­mente morar em sua companhia. Não atribuímos esta resistência senão a capricho, para não fazermos mau juízo de ninguém; o caso é que o major punha naquilo o maior empenho, teria lá suas razões.

O segredo que a Maria-Regalada dissera ao ouvido do major no dia em que fora, acompanhada por D. Maria e a coma­dre, pedir pelo Leonardo, foi a promessa de que, se fosse servida, cumpriria o gosto do major.

Está pois explicada a benevolência deste para com o Leo­nardo, que fora ao ponto de, não só disfarçar e obter perdão de todas as suas faltas, como de alcançar-lhe aquele rápido acesso de posto.

Fica também explicada a presença do major em casa da Maria-Regalada.

Depois disto entraram todos em conferência. O major desta vez achou o pedido muito justo, em conseqüência do fim que se tinha em vista. Com a sua influência tudo alcançou; e em uma semana entregou ao Leonardo dois papéis: – um era a sua baixa de tropa de linha; outro, sua nomeação de Sargento de Milícias.

Sem que os vissem, viam-se os dois muitas vezes, e dis­punham seus negócios.

Infelizmente ocorria-lhes a mesma dificuldade: um sar­gento de linha não podia casar. Havia talvez um meio muito sim­ples de tudo remediar. Antes de tudo, porém, os dois amavam-se sinceramente; e a idéia de uma união ilegítima lhes repugnava.

O amor os inspirava bem.

Esse meio de que falamos, essa caricatura da família, en­tão muito em moda, é seguramente uma das causas que produziu o triste estado moral da nossa sociedade.

Só essa dificuldade demorava os dois. Entretanto o Leo­nardo achou um dia o salvatério, e veio comunicar a Luisinha o meio que tudo remediava: podia ficar ele sendo soldado e casar, dando baixa na tropa de linha, e passando-se no mesmo posto para as Milícias.

A dificuldade, porém, estava ainda em arranjar-se essa baixa e essa passagem: Luisinha encarregou-se de vencer esse em­baraço.

Um dia em que estava sua tia a rezar no seu rosário, justamente num daqueles intervalos de Padre-Nosso a Ave-Ma­ria de que acima falamos, Luisinha chegou a ela, e comunicou; lhe com confiança tudo que havia, fazendo preceder sua narração da seguinte declaração, que cortava a questão pela raiz:

– Para lhe obedecer e fazer-lhe o gosto casei-me uma vez, e não fui feliz; quero ver agora se acerto melhor, fazendo por mim mesma nova escolha.

Em breve, porém, conheceu que fora inútil sua precau­ção, porque D. Maria confessou que de há muito ruminava aque­le mesmo plano.

Combinaram-se pois as duas.

A bondade do major inspirava-lhes muita confiança e lem­braram-se por isso de recorrer a ele de novo.

Foram ter com Maria-Regalada, que mesmo na véspera lhes tinha mandado dar parte que se mudara da Prainha, e ofere­cia-lhes sua nova morada.

A comadre, de tudo inteirada, fez parte da comissão.

Quando entraram em casa de Maria-Regalada, a primei­ra pessoa que lhes apareceu foi o major Vidigal, e, o que é mais, o major Vidigal, em hábitos menores, de rodaque e tamancos

Além disto recebeu o Leonardo ao mesmo tempo carta de seu pai, na qual o chamava para fazer-lhe entrega do que lhe deixara seu padrinho, que se achava religiosamente intacto.

Passado o tempo indispensável do luto, o Leonardo, em uniforme de Sargento de Milícias, recebeu-se na Sé com Luisinha, assistindo à cerimônia a família em peso.

Daqui em diante aparece o reverso da medalha. Seguiu-se a morte de D. Maria, a do Leonardo-Pataca, e uma enfiada de acontecimentos tristes que pouparemos aos leitores, fazendo aqui ponto final.

(Manuel Antônio de Almeida. Memórias de um sargento de milícias. 14. ecl., São Paulo, Àtica, 1986, p. 133-5)

QUESTÕES SOBRE O TEXTO

1.    Que  plano faziam D. Maria e a comadre  para a viuvinha Luisinha e o que atrapalhava esse plano?

2-O que fizeram Luisinha e Leonardo?

3 -Que solução encontraram para o caso?

4 -Cite alguns costumes da época mencionados
pelo autor.

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